A entrega do Oscar de 2025, neste domingo, 2, vai atrair as atenções de todo o Brasil. O filme Ainda Estou Aqui é um dos favoritos, assim como a atriz Fernanda Torres, que concorre ao prêmio de melhor atriz.
+ Leia mais notícias de Cultura em Oeste
A obra apresenta uma narrativa cujo tema é a luta por justiça, baseada em questões históricas ligadas à repressão durante o regime militar no Brasil. No enredo, Eunice Paiva, mulher do ex-deputado Rubens Paiva, assassinado em 1971 na prisão, foi considerada um símbolo na luta para responsabilizar os culpados pela morte do marido. E da defesa dos direitos humanos, da justiça e da igualdade de gênero.
Mas, se o objetivo principal do diretor Walter Salles foi evidenciar essa luta, a presença da música Je T’aime Moi Non Plus como uma das mais importantes da trilha musical do filme pode ser vista como uma contradição.
Muito mais pelo autor e intérprete, o francês Serge Gainsbourg, morto em 1991, do que até pelo conteúdo controvertido da composição. Para muitos, ela beira a vulgaridade, por ter um forte apelo sexual. Mas a questão vai além. Tem a ver com o autor e não com a obra.
Gainsbourg a interpreta junto com a britânica Jane Birkin.
Figura de relevância na música francesa, Gainsbourg tem um histórico controverso que está longe de ser ignorado por entidades defensoras dos direitos das mulheres. Anos depois de sua morte, ele passou a ser acusado publicamente de assédio, e de ser o Weinstein da música, pela cantora belga Lio, nascida em Portugal, conforme ela declarou em 2020. Harvey Weinstein é um ex-produtor de filmes norte-americano condenado naquele ano por crimes sexuais.
Ainda que Gainsbourg não tenha sido condenado, a trajetória dele foi marcada por atitudes violentas e problemáticas, como o assédio à cantora norte-americana Whitney Houston. No programa Champs-Élysées, de Michel Drucker, em 1986, Serge Gainsbourg, bêbado, declarou a Whitney Houston, enquanto a tocava, que queria “f…com ela”. O tom foi jocoso e agressivo.
Uma lista de outras atitudes chulas marcaram sua trajetória, em paralelo à imagem de ícone. Em 1966, a composição de Les Sucettes chocou por sua dupla interpretação. E constrangeu a intérprete, France Gall, de 19 anos na época. Sem saber, ela cantava uma melodia com conotação sexual.
“Eu não entendia o significado e posso garantir que na época ninguém compreendia o duplo sentido”, declarou Gall ao Parisien em 2015. “Foi horrível, horrível! Isso mudou minha relação com os meninos. Me humilhou, na verdade. (…) Ao mesmo tempo, eu sentia que não era claro… Era o Gainsbourg, afinal! Grande porco!”
Ao podcast Transmission da Arte Radio, Lio também criticou a idolatria em torno de alguém que ela não respeitava. “Ele era o Weinstein da música. (…) Era um assediador, simplesmente.”
Em 1984, foi lançada a canção Lemon Incest, em que Gainsbourg insinua um desejo incestuoso em relação à filha, a atriz e cantora Charlotte Gainsbourg, 53 anos. Segundo texto do site aufeminin, a obra dele também teve cunho racista.
A letra da música Joanna indica um forte preconceito. Em um trecho, a letra se refere, ao que insinua ser uma mulher negra-norte-americana, a alguém “tão gorda quanto um elefante” e que segue “um regime de bananas”.
O movimento Me Too iniciou uma campanha contra a postura dele. Em dezembro de 2023, uma petição de cidadãos parisienses, assinada por mais de 10 mil pessoas, era contrária à criação de uma estação de metrô com o nome dele. A causa foi perdida e a estação, sob a gestão da prefeita socialista, Anne Hidalgo, foi inaugurada.
Na última segunda-feira, 24, vários ministros do governo brasileiro assistiram a uma sessão especial de Ainda Estou Aqui, em Brasília. Ao lado deles, estavam o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e sua mulher, Janja, que tem insistido em aparecer como uma defensora dos direitos humanos e da igualdade das mulheres.
Todos eles, os mesmos que apoiaram Anielle Franco, ministra da Igualdade Racial, na denúncia de assédio contra o Silvio Almeida, ex-ministro dos Direitos Humanos, aplaudiram o filme.
Opções para Ainda Estou Aqui
Mas as autoras do artigo do portal aufeminin, Mélanie Bonvard, Coline CM e Mathilde Wattecamps, não ficariam satisfeitas em ver a obra de Gainsbourg incluída, com um toque de reverência, em um filme que disputa o Oscar. Sem nenhuma ressalva sequer em relação às atitudes de Gainsbourg.
O questionamento delas é direto. Vale para os que aplaudem sem saber. E para os que defendem a inclusão da música, pelo caráter artístico e como um necessário registro da época.
“Na época da hashtag #MeTooIncest, que permite reunir centenas de depoimentos sobre o tema, e de militantes trabalhando para acabar com essa cultura que normaliza o incesto, devemos ainda ouvir Gainsbourg?”
Elas mesmas dão a resposta. Há outras maneiras de recriar um contexto. E também várias outras canções capazes de tornar uma obra verossímil. Gainsbourg tem sua importância histórica na música. Isso não é suficiente, porém, para que sua obra seja tratada como intocável ou imprescindível.
“Cada um é livre para fazer sua escolha”, afirmam as autoras do texto. “No entanto, é importante lembrar quem era o artista, dissecar alguns de seus textos e compreender o impacto que eles podem ter causado, se queremos avançar nos direitos das mulheres, das vítimas de racismo e das crianças.”
Leia mais: “Oscar 2025 não terá apresentação das canções indicadas ao prêmio”
A mágoa e o drama causados por Gainsbourg, segundo elas, não podem ser deixados de lado.
O post Ainda Estou Aqui: música de cantor acusado de assédio compõe a trilha apareceu primeiro em Revista Oeste.