Diante da percepção de que Janja se tornou alvo frequente de críticas por parte da oposição, o governo formou um grupo informal com o objetivo de blindar a primeira-dama e oferecer uma estratégia jurídica e política.
Em fevereiro, Janja chegou a ensaiar um recolhimento para evitar desgastes, mas voltou à cena ao insistir em fazer viagens internacionais, mesmo com avaliações internas de que seus roteiros fora do país causam impacto negativo na imagem de Lula.
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A primeira-dama viajou para o Japão uma semana antes do presidente e, na próxima quarta-feira, 26, viajará a Paris para participar da Cúpula Nutrição para o Crescimento.

O grupo que tem sido chamado internamente de “bunker de proteção” à primeira-dama inclui o ministro da Advocacia-Geral da União, Jorge Messias, a ministra da Secretaria de Relações Institucionais, Gleisi Hoffmann, o líder do PT na Câmara, Lindbergh Farias (RJ), e o grupo de advogados do Prerrogativas.
Messias acompanha de perto as representações feitas contra a atuação de Janja em instâncias como a Justiça, o Tribunal de Contas da União (TCU) e o Ministério Público Federal (MPF). Uma dessas ações pedia a saída de Janja do Palácio do Planalto, mas foi arquivada no último dia 14.
Gleisi e Lindbergh ajudam na disputa política nas redes sociais. Já o grupo Prerrogativas, liderado pelo advogado Marco Aurélio de Carvalho, tem a missão de defender a imagem de Janja perante a sociedade civil.
Janja, cuja função é ser esposa do Lula, mantém um gabinete com 8 assessores, que custam R$ 2 milhões ao ano. pic.twitter.com/Oc0Se2ij5c
— Leo Siqueira (@leosiqueirabr) December 31, 2024
A avaliação interna é que, em um curto espaço de tempo, houve uma “ação coordenada da oposição” contra a primeira-dama, com ataques que, segundo o governo, estavam em um nível diferente de agressividade em relação a primeiras-damas no passado.
Há um consenso de que isso tem prejudicado a imagem de Janja, mesmo que, do ponto de vista jurídico, as representações contra ela não tenham avançado.
Janja reconsidera posturas, mas não as viagens internacionais
Diante da pressão, Janja considerou ajustar sua performance. Aliados afirmam que ela indicou que se concentraria apenas nas questões que considera essenciais, sem deixar de se posicionar sobre temas que considera importantes. A ideia seria adotar uma postura mais cautelosa.
Contudo, esse recuo não inclui as viagens internacionais. A decisão sobre esses compromissos é tomada em conjunto com o presidente, dentro de um espaço restrito de discussões, de acordo com a apuração do jornal O Globo.
No último dia 15, Janja viajou ao Japão junto com a equipe precursora do presidente. Esse grupo, composto por assessores, policiais e membros do Gabinete de Segurança Institucional (GSI), costuma viajar antes de Lula para preparar as visitas oficiais.
O governo adotou sigilo sobre as atividades de Janja no Japão. Na semana passada, ela participou de um evento de sustentabilidade ligado à COP30, que ocorrerá em novembro em Belém, além de uma atividade cultural na Embaixada do Brasil em Tóquio.

Antes de voltar ao Brasil, Lula autorizou a participação de Janja na Cúpula Nutrição para o Crescimento, entre 26 e 30 de março, em Paris, a convite do governo francês.
Entretanto, semanas antes, Janja desistiu de ir a Nova York para representar o Brasil na 69ª sessão da Comissão sobre a Situação da Mulher, evento ligado à ONU. Em 2024, ela participou do mesmo evento nos EUA, mas este ano optou por não ir devido ao desgaste causado por suas viagens.
A última viagem de Janja foi em fevereiro, quando representou oficialmente o governo no evento Aliança Global contra a Fome e a Pobreza, em Roma, onde se encontrou com o papa Francisco.

O roteiro na Itália gerou manifestações públicas de parlamentares da oposição, como Marco Feliciano, Rosângela Moro, Flávio Bolsonaro e Caroline de Toni, e virou alvo de uma notícia de fato no MPF.
A primeira-dama também decidiu não viajar a Nova York no momento em que a ministra das Mulheres, Cida Gonçalves, enfrenta risco de perder o cargo na reforma ministerial. Cida chefiou a missão aos EUA e uma ala do governo considera sua saída iminente.
Gabinete formal de primeira-dama não prospera
Janja, por ora, também abandonou a ideia de criar um gabinete formal para definir seu escopo de atuação. Ela voltou a tocar nesse tema em meados de 2024, mas a proposta não avançou pelos mesmos motivos que a impediram de prosperar no início de 2023.

Ministros próximos a Lula alertaram que a oposição poderia convocá-la com frequência para dar explicações sobre sua função, o que levou à decisão de barrar a criação do gabinete.
Em entrevista à CNN Brasil na última sexta-feira, 21, Gleisi defendeu que Janja tivesse um cargo no governo. “Eu defendo sim, que tenha um cargo honorífico, ela não vai receber nada. Porque é importante para que ela possa prestar contas, falar”, disse a ministra. “Eu não vejo problema nenhum.”
Gleisi também disse achar importante que Janja tenha “condições de atuar”, por ser a companheira do presidente da República e, por isso, “ter um peso social importante”.
JANJA HOJE DURANTE PAINEL DO G20:
“FUCK YOU ELON MUSK”.
Na moral. Eu nem sei mais o que falar. pic.twitter.com/3w6YUj0xSE
— Rafael Gloves (@rafaelgloves) November 16, 2024
Auxiliares do Planalto já percebem uma mudança na postura de Janja. Ela tem reduzido a participação em eventos e feito menos pedidos, que anteriormente eram identificados como provenientes de seu gabinete.
Na semana passada, Janja também decidiu fechar seu perfil no Instagram. A assessoria dela justificou a decisão como uma resposta a onda de comentários de ódio e misóginos nas publicações. Aliados afirmam que, nas redes sociais, Janja tem feito postagens mais criteriosas, com seleção mais cuidadosa sobre os temas sobre os quais se manifesta.
No entanto, no Palácio do Planalto, não se descarta que esse recuo seja temporário e que Janja volte a buscar protagonismo. Há um ano, ela era vista como uma potencial cabo eleitoral para candidatas mulheres do PT nas eleições municipais. Mas, assim como Lula, ela se manteve afastada dos palanques femininos durante o período eleitoral.

Governo avalia que xingamento a Elon Musk foi pior momento
Internamente, avalia-se que o pior momento para Janja foi em novembro passado, durante o G20, quando ela causou um constrangimento diplomático ao xingar o empresário Elon Musk. Durante o painel do G20 Social, a primeira-dama disse “fuck you” ao se referir ao bilionário, o que gerou uma reação imediata contra o governo.
No dia seguinte, Lula declarou publicamente que não se pode “ofender ninguém”.
O foco na figura de Janja surge em um momento de baixa popularidade para Lula. De acordo com uma pesquisa Ipsos-Ipec deste mês, 41% dos brasileiros consideram o mandato de Lula ruim ou péssimo, enquanto 27% o veem como ótimo ou bom.
Além disso, uma pesquisa AtlasIntel/Bloomberg de fevereiro revelou que 58% dos brasileiros têm uma imagem negativa de Janja, um aumento significativo em relação aos 40% registrados em outubro.
O post Governo monta ‘bunker de proteção’ a Janja apareceu primeiro em Revista Oeste.