8 de janeiro: idosa condenada pelo STF ‘não quer mais viver’

Adalgiza Maria Dourado, idosa de 65 anos condenada a 16 anos de prisão por participar dos atos do 8 de janeiro, não sente mais vontade de viver. É o que relatou Célia Regina, irmã de Adalgiza, em entrevista a Oeste.

A idosa está presa desde maio de 2024 no Presídio Feminino do Distrito Federal, conhecido como Colmeia. À época, o ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), decretou a prisão da manifestante ao alegar que Adalgiza descumpriu medidas cautelares.

A família de Adalgiza possui um histórico de suicídio, incluindo uma tentativa da própria idosa aos 15 anos. Antes de ser presa, ela já enfrentava a depressão. As autoridades foram informadas dessa condição.

No presídio, ela divide a cela com oito detentas, entre elas, condenadas por crimes graves, como latrocínio e homicídio. Segundo Célia, desde que presenciou a morte de uma das presas, sua irmã passou a demonstrar instabilidade emocional e a sofrer crises de ansiedade.

“Ela disse que está com medo de adoecer, porque tem medo de ficar abandonada ali, porque ela viu a morte de uma pessoa que estava na cela com ela”, relata Célia. “É muito descaso. Ela disse que é horrível o ambiente. Em todo momento, ela quer desistir da vida. Ela tem o direito de banho de sol e não quer mais tomar sol (…) Ela diz que não quer viver. Já tem dez meses.”

Prontuário médico de Adalgiza Maria Dourado | Foto: Reprodução/Ministério da Saúde
Em prontuário obtido por Oeste, médico aponta o risco de suicídio e recomenda que a idosa não fique sozinha na cela | Foto: Reprodução/Ministério da Saúde

Até o momento, a defesa de Adalgiza, representada pelo advogado Luiz Felipe da Cunha, ingressou com cinco pedidos de prisão humanitária, baseados em sua idade avançada e nas comorbidades que possui, mas todos foram negados.

Além disso, foram solicitados quatro exames de eletrocardiograma devido à sua arritmia cardíaca, sem qualquer resposta das autoridades. O único atendimento autorizado foi uma consulta odontológica, porém, sem permissão para atendimento particular. Segundo a defesa, os dentistas da penitenciária realizam apenas extrações dentárias.

Na sexta-feira 4, o advogado acionou a OEA novamente, depois de constatar que Adalgiza não consegue se alimentar corretamente, em virtude da comida de má qualidade oferecida no presídio.

Segundo Cunha, as marmitas fornecidas apresentam excesso de óleo e, em algumas ocasiões, chegam com odor desagradável. Além disso, o advogado afirmou que Adalgiza tem precisado de calmantes para lidar com a ansiedade.

A defesa também relatou que a idosa passa grande parte do tempo sob efeito de medicação, principalmente devido aos pensamentos suicidas que tem enfrentado na prisão.

A prisão da idosa no 8 de janeiro

8 de janeiro
Adalgiza Maria Dourado, de 65 anos: problemas de saúde devido a condições precárias em presídio | Foto: Reprodução

Adalgiza foi presa em 8 de janeiro de 2023, no Palácio do Planalto, durante os acontecimentos daquele dia. Testemunhas relatam que ela entrou no prédio acompanhada de outras pessoas que buscavam abrigo contra helicópteros que lançavam bombas de efeito moral e disparavam balas de borracha.

Há relatos de que muitos foram induzidos a ingressar nos prédios públicos. No momento da prisão, Adalgiza portava apenas uma bandeira e uma garrafa de água.

Inicialmente, foi liberada em 13 de janeiro, sob monitoramento eletrônico, devido à sua idade avançada e suas condições de saúde. No entanto, em 6 de agosto de 2024, foi presa novamente, sob a alegação de falhas na tornozeleira eletrônica.

O dispositivo apresentava recorrentes problemas de sinal devido à localização da entidade onde ela atuava como voluntária. Ainda assim, sua segunda prisão foi justificada pelo suposto risco de fuga, apesar da falta de uma previsão legal clara para tal medida.

Inicialmente assistida pela Defensoria Pública, sua defesa atual assumiu o caso em agosto de 2024. Desde então, foram protocolados diversos pedidos de prisão humanitária, além de duas denúncias à Organização dos Estados Americanos (OEA) relatando maus-tratos e negligência no sistema prisional.

Impacto na família

Adalgiza tem duas filhas e quatro netas. Um bisneto também está a caminho. Célia é a única irmã que consegue manter contato próximo com a idosa, que se sente culpada por “colocar a família em situação de sofrimento”.

“Quando eu chego, ela chora e pede desculpas por causar todo esse dano”, disse. “Estou muito abalada até hoje. A família toda está doente.”

Célia Regina é a única da família que participa ativamente das mobilizações pela anistia dos presos do 8 de janeiro, fazendo visitas frequentes ao Congresso Nacional ao lado do advogado de Adalgiza.

A irmã de Adalgiza afirma que, apesar da batalha jurídica, encontrou uma nova família entre aqueles que lutam pela anistia. Segundo ela, os familiares dos presos que enfrentam situações semelhantes formam uma rede de apoio unida e solidária.

Durante a entrevista, tanto a irmã de Adalgiza quanto seu advogado expressaram a esperança de que a repercussão do caso leve as autoridades a conceder um dos pedidos de prisão humanitária.

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