Toda e qualquer ditadura tem como aliado primevo a desfaçatez, a omissão, a complacência. E os exemplos históricos são inúmeros.
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Por exemplo, durante o levante da Revolução Russa, especificamente no governo provisório de 1917, os líderes democráticos russos — como o último primeiro-ministro russo, Alexander Kerensky — falharam em conter os revolucionários bolcheviques. Subestimaram suas forças e influências.
Muitos socialistas tidos como “democráticos”, “moderados”, acreditavam piamente que os bolcheviques poderiam ser parceiros na construção de um governo de transição. Porém, depois de tomar o poder, Lênin dissolveu a Assembleia Constituinte e estabeleceu um governo de partido único, justificando-o como “temporário”, sob aplausos efusivos de inúmeros intelectuais e políticos ocidentais.
Ditaduras nazista e chinesa

Muitos alemães tidos como “esclarecidos” e “especialistas em política interna”, incluindo grande parte das elites políticas e intelectuais do país, subestimaram ou até apoiaram Hitler. Acharam que ele poderia ser controlado dentro das regras democráticas se extrapolasse suas ações.
E, mesmo depois do o incêndio do Reichstag (1933), quando o governo usou o incidente para restringir liberdades civis e consolidar o poder, sem resistência significativa da sociedade, tais elites e especialistas acreditavam que Hitler, a ideologia nazista e seus séquitos estavam sob controle democrático… até ser tarde demais.
Quando lemos Mao: A História Desconhecida, da escritora Jung Chang e de seu marido, o historiador Jon Halliday, percebemos que o principal fator que fez de Mao Tsé Tung se tornar o que ele se tornou — o maior sanguinário político da história moderna — foi a completa imperícia e omissão do governo do Kuomintang, liderado por Chiang Kai-shek, que falhou em conter a insurgência comunista simplesmente por subestimar a força de Mao Tsé-Tung e de seu Exército.
Depois da vitória na Guerra Civil que o levou ao posto de líder, Mao prometeu um regime democrático, mas rapidamente instaurou um Estado bisonhamente ditatorial sob o Partido Comunista. Ação que culminou na conhecida “Revolução Cultural”, uma das épocas mais sombrias e quase indescritíveis em termos de supressão ditatorial de um povo no século 20, de 1958 a 1962, estima-se que 45 milhões de chineses morreram de fome ou em consequência direta da política econômica de Mao.
EUA no Vietnã
Para finalizar os exemplos, depois da retirada dos Estados Unidos do Vietnã e do Sudeste Asiático, a comunidade internacional evitou interferir no que parecia ser um mero conflito interno, justificando que a liberdade nacional e cultural desses países deveria ser respeitada — mesmo em meio a um banho de sangue não completamente mensurável até os dias atuais.
Parte significativa da população cambojana viu o Khmer Vermelho como libertadores contra a influência estrangeira e o governo anterior. O Khmer Vermelho liderado por Pol Pot, por sua vez, tomou o poder alegando que criaria uma sociedade igualitária com justiça social imediata, mas rapidamente instaurou um regime genocida que exterminou cerca de 2 milhões de pessoas somente nos primeiros anos.
Três pontos em comum entre ditaduras

Todas as ditaduras que estudei, e não foram poucas, nasceram e se instalaram por meio da complacência, da desfaçatez e da omissão, seja do povo, das elites políticas e intelectuais, das mídias, entre outros.
Essa postura indulgente com ditadores e ditaduras atua de três maneiras distintas, às quais denomino com três palavras usadas desde o início deste texto como quase “sinônimas”, mas que, numa ditadura assumem, leves nuances que as diferenciam de forma clara:
- Omissão
Por meio da velha covardia humana, o omisso tem duas maneiras de agir ante uma ditadura, ou cria uma falsa crítica segura, que mantém sua maquiagem de autonomia intacta, mas que não fere o mal que finge atacar, ou assume antes o mais arrematado silêncio intimidado; o omisso, assim, é aquele que vaga entre uma falsa oposição montada para cheirar certa liberdade, e a completa postura passiva e atemorizada ante o leviatã.
- Complacência
Os complacentes, entretanto, dão a entender ‒ ou falam abertamente ‒ que tal postura autoritária a que se assiste tomar forma é uma concessão consciente e racional, uma ação necessária para sanar algum mal imediato, mas que, claro, daqui a pouco, tudo retornará aos eixos “democráticos”; a covardia do complacente é diferente daquela do omisso pelo simples fato que o complacente assume uma postura ativa para justificar sua fraqueza.
- Desfaçatez
A desfaçatez no indivíduo, por sua vez, consiste na completa e desavergonhada justificação do autoritarismo, o último grau de fideísmo no curral dos ideólogos; eles tomam com certo orgulho diante da justificação das manobras e ações despóticas sob as mais diversas desculpas, as quais vão desde um aplumado “autoritarismo necessário” até uma chuva de retórica que pinta na face da ditadura um arco-íris de democracia inexistente.
Situação do Brasil

Há duas colunas, em A Revolução Devora seus Filhos, eu já havia tratado desse tema, mas acredito que ele merecia um aprofundamento. Estamos claramente assistindo no Brasil o nascimento de uma ditadura, não aos moldes revolucionários do século 20, mas por meio de uma sofisticada tática jurídico-política de sequestro das instituições.
E, novamente, essa ditadura está se expandindo nos ombros dos omissos, dos complacentes e dos que agem com desfaçatez. Somente há poucos meses, por exemplo, Estadão e Folha parecem ter acordado de seus sonos ideológicos, mas não sei dizer ainda se são eles os omissos que descrevi acima, que montam uma falsa oposição para maquiar suas concordâncias vergonhosas.
Quanto à maioria dos intelectuais e acadêmicos, por sua vez, há a mais completa complacência com os arroubos tirânicos de Alexandre de Moraes, as vozes críticas se emudecem num sono tranquilo no colo do ministro. E, por fim, na enorme maioria da esquerda, há a velha desfaçatez bisonha de sempre, a pura justificação da ditadura moralesca sob porcas e até nojentas justificativas.
“A única maneira de frear o Supremo é minando os males que o sustentam na sociedade, os omissos, os complacentes e os que agem com desfaçatez na defesa da ditadura”
Pedro Henrique Alves
A única forma de frear a ditadura do Supremo, acredito, não é criando oposiçãozinha no Senado ou na Câmara, quando Moraes prendeu Daniel Silveira ele passou um recado claro: “Tudo aqui é meu, se eu quiser eu prendo parlamentares a hora que eu quiser, basta interpretar” — né, Barroso? A única maneira de frear o Supremo é minando os males que o sustentam na sociedade, os omissos, os complacentes e os que agem com desfaçatez na defesa da ditadura.
Uma oposição nacional abrangente, com povo nas ruas, profissionais das mídias e influencers tomando posição contra a ditadura insurgente, os intelectuais parando de adular ações despóticas com retóricas de ABNT, aí sim, aí teremos chances de parar Moraes e seus lacaios. A danação de um povo começa quando ele se torna alheio, por convicção, medo ou interpretações erradas, aos rumos que seu país está tomando.
“O Brasil não é uma democracia funcional. Estamos no limbo pantanoso que separa a democracia da ditadura”
Pedro Henrique Alves
Hoje não restam dúvidas de que o Brasil não é uma democracia funcional. Estamos no limbo pantanoso que separa a democracia da ditadura. E a única forma de retornar a terras livres é deixando o bote dos que estão nos carregando para a margem da danação política e social.
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